sexta-feira, 24 de outubro de 2014

ENTREVISTA THAIS VALENTE


O GEST tem o imenso prazer de lançar na rede este espaço inteiramente dedicado ao universo da tatuagem, no qual passará a publicar o resultado de suas atividades ao longo do ano de 2014.

Aqui você lerá dicas de tatuadores e tatuados sobre os mais variados assuntos, tais como características de diversos estilos de tatuagem, cuidados pré e pós tatuagem e, dentre outros temas de igual relevância, entrevistas com tatuadores de várias partes do país.

E nada mais especial do que inaugurar o nosso blog com a entrevista exclusiva que a tatuadora carioca Thais Valente gentilmente nos concedeu.
Thais Valente
Aos 25 anos de idade, com a agenda de 2014 fechada desde meados do ano, Thais vem rapidamente chamando a atenção de tatuadores e clientes por sua técnica apurada e detalhista, dedicada quase que exclusivamente ao preto e cinza e ao geometrismo.


Agora chega de papo e leiamos o que Thais pensa a respeito do universo da tatuagem nos dias atuais, de como ela começou a tatuar, de como desenvolveu o estilo que lhe é peculiar e mais, muito mais.


Bom dia, Thais. Antes de mais nada, gostaria de te agradecer pela entrevista.

Jamais! =) Rs
                                       
                                
Analisando o teu trabalho, a gente percebe claramente a segurança com que tu trabalhas o pontilhismo, o preto e cinza e o geometrismo. Como isso aconteceu na tua carreira?

Foi natural. Nunca desenhei esses estilos em nenhum momento da minha vida, até que alguém me procurou para fazer um trabalho em pontos e me apaixonei, senti paciência e confiança para fazer, o que me trouxe felicidade, assim como nos outros estilos que vc mencionou. Desde então, essa paciência me trouxe vontade de estudar a respeito, e naturalmente, aos poucos, me especializar e focar nesses estilos. Tudo nesta profissão foi um acaso pra mim =) Obras do destino!

                                                                       
Tu podes dizer como a tatuagem aconteceu na tua vida? Primeiro como tatuada, depois como tatuadora - se é que se pode separar uma da outra?

Eu fiz minha primeira tatuagem assim que completei 18 anos, por respeito aos meus pais. Me senti livre para simplesmente fazer e não dizer nada a ninguém, foi assim em todas as minhas tatuagens, o que me causou alguns problemas em casa (hehe), mas normal. Com 21 anos, esse tatuador, que já me tatuava desde os meus 18 e que acabou virando um amigo, em uma visita que fiz ao levar alguém para tatuar com ele, comentou que estava precisando de uma menina para arrumar o estúdio e ajudá-­lo nessas funções, daí me perguntou se eu conhecia alguém. Na época eu estava estudando a possibilidade de treinar para ser dublê de ação, e o lugar era ao lado do estúdio dele, então estava sempre próxima. Me ofereci para ajudá-­lo enquanto ele não achava ninguém, e em troca disse para que me tatuasse de graça... Ele aceitou... E encontrei ali o que eu não estava procurando. Larguei tudo e me dediquei 100%.

                                                                       
Olhando as tuas tattoos, é impossível não lembrar, por exemplo, do trabalho de um Thomas Hooper. Ele é uma influência? Aliás, quais são as tuas influências, na tatuagem e na arte em geral?

Ele com certeza é uma de minhas maiores influências, entre Álvaro Flores, Samoan Mike, Shane e meu grande amigo paulista Brian Gomes, entre muitos outros profissionais que admiro muito e me inspiram. (Ps. Para maiores informações sobre os tatuadores aqui mencionados, acesse os links disponibilizados no fim da entrevista.) 

                                                                       
Tuas tattoos são predominantemente preto e cinza. Já trabalhaste com cor? Ou pretende trabalhar?

Já trabalhei, mas não me apaixonei. Minhas tintas coloridas foram todas dadas de presente a alguns amigos e outras foram parar no lixo (rs).
                                                           
            
Num universo maciçamente masculino, tu sentes algum preconceito por parte dos clientes? Ou ocorre o inverso?

Não, mas quando eu estava no início e ninguém conhecia meus trabalhos e eu trabalhava em um estúdio comercial, quando entrava um cliente e eu falava que eu era um dos artistas, alguns me olhavam descrentes, mas não acho que por ser mulher, e sim por ser mulher, ter cara de menina e ser muito jovem. Durante a tatuagem, existia um ar de “pagar pra ver”, o que sempre me incomodou um pouco. Acho que por isso tenho pavor de trabalhar comercialmente, com clientes aleatórios de porta. Gosto que me procurem apenas aqueles que já conhecem meu trabalho de alguma forma. O boca-a-boca sempre me atraiu muito mais.

                                                                       
Desde quando começaste a tatuar? Tu sentes alguma diferença do começo para hoje, em termos de clientela, de demanda, de preconceito ou da falta de preconceito?

Eu tenho 5 anos apenas de carreira e, embora os tempos mudem rápido, eu não acho que tenha mudado tanta coisa assim. Eu sei que existe preconceito, mas eu anulei tanto ele na minha vida que eu não sei nem falar sobre isso e te dar estatísticas de algo. Há alguns anos ando na rua olhando o além para não me deparar com olhares estranhos, então realmente não sei mais te dizer (rs). Mas espero que o mundo tenha evoluído.

                                                                       
Por fim, Thaís, tu queres deixar alguma mensagem para o pessoal que deseja se tornar tatuador(a)? Alguma dica?

Se você não for 100% algo, jamais será 100% em nada. Eu larguei tudo, me dediquei mesmo.... fiz algumas besteiras, faz parte, mas sempre respeitei em primeiro lugar a pele das pessoas e vejo muitos aprendizes ignorando esse respeito. Mas acho que eu não daria conselho para quem quer tatuar, e sim para quem quer ensinar.... existem alguns mestres que não dão bons exemplos às suas crias, e, assim como quando culpam os pais pelas cagadas dos filhos, ocorre a mesma coisa. Que levem a sério de verdade, apenas.
                                                                       

Obrigado, Thais. Boa sorte, muito trabalho e (mais) êxito.

Que é isso! Obrigada vocês =)